Artigo: 8 Estratégias para combater o bloqueio criativo

Dicas para o seu processo criativo

Se você já tentou desenvolver qualquer trabalho criativo, provavelmente já se deparou com um bloqueio. Parece que nenhuma ideia é boa o suficiente e que sequer vale a pena fazer qualquer esforço; no entanto, isso é parte natural do fluxo. Como o próprio nome diz, o processo criativo é um processo. E, nos momentos em que temos mais dificuldades, é natural precisar de um empurrãozinho. Sendo assim, fiz essa lista com oito “empurrõezinhos” para te ajudar.

  1. Pomodoro

A escrita é uma atividade que demanda tempo e energia. Existem momentos nos quais nos concentramos tanto que muitas vezes nos esquecemos de tirar uma pausa para tomar uma água, ir ao banheiro ou só pensar em outra coisa que não a escrita. Esses momentos de foco são muito úteis, mas, quando levados ao extremo, podem ser prejudiciais. O cansaço posterior ao excesso de foco pode causar uma saturação e, por consequência, te deixar sem energia para criar.

Mas, em outros momentos, parece que nada pode fazer com que nos concentremos na atividade criativa: é como se qualquer outra questão fosse mais interessante ou importante. Claro que relaxar é fundamental, mas perder completamente o foco não é produtivo, em especial quando o nosso objetivo é completar algo.

Equilibrar momentos de atenção profunda e relaxamento é um desafio. Quanto tempo é ideal para cada um? Como garantir que vou manter o foco? E como controlar esse tempo? Felizmente, alguém já pensou nisso!

Minha recomendação é o método Pomodoro. Nele, você usa uma fórmula determinada de foco e descanso — minha favorita é a de 25 minutos de foco e 5 de descanso. 

Gosto de selecionar vídeos no YouTube de cronômetros prontos. De quebra, eles também têm uma música suave que ajuda na imersão durante os momentos de foco. Com a ajuda desses vídeos, consigo me concentrar mais durante a sessão de escrita e ter um incentivo a voltar depois do momento de relaxamento. Ou, se você preferir, há também apps gratuitos.

Vinte e cinco minutos de concentração são menos do que meia hora, então parece ser mais fácil de encarar. Sem contar que toda vez que penso em parar de trabalhar e fazer uma pausa durante esses 25 minutos, posso consultar o vídeo e ver quanto tempo falta para acabar a sessão de foco. É estimulante ver que restam apenas 10 minutos. Você já trabalhou 15, logo, falta menos da metade para acabar essa sessão e depois vem o descanso. Além de que isso ativa um “mecanismo” de satisfação por ter riscado uma tarefa da lista, e o mesmo te motiva a continuar.

Tem ideias que precisam de tempo olhando para a tela e pensando no que escrever. É como se elas estivessem esperando você prestar atenção o suficiente para aparecer.

  1. Brainstorm

A página em branco é um dos monstros mais assustadores da escrita. Ela fica te encarando, te desafiando a começar a escrever. As primeiras palavras são sempre as mais difíceis. E é aí que entra o brainstorm. Esta técnica estimula a criatividade, ajuda a derrotar a página em branco e te dá muitas ideias para caminhos que você pode seguir com a escrita.

Agora, como se faz um brainstorm? É mais simples do que parece. Primeiro, você escolhe uma palavra. Por exemplo, “flor”. Depois, comece a listar palavras que se associam com a primeira. “Abelha, mel, urso, parque” e por aí vai. Faça isso com algumas palavras e, como o nosso objetivo é escrever histórias, eventualmente ideias de pequenas premissas vão se formar, como “Ursos que querem mel”. Depois, você pode voltar a elas e adicionar conflitos. “Ursos que querem mel e decidem roubar uma conferência de mel”— se lembram de alguma história assim?. É certo que existem outros caminhos que um brainstorm pode tomar; esse exemplo que eu dei é a maneira como o meu brainstorm funciona. Recomendo que faça algumas vezes esse exercício até encontrar a sua maneira de fazer um brainstorm.

Depois deste processo você terá uma lista de ideias: pequenas estrelinhas que podem ser conectadas em constelações. A regra mais importante do brainstorm é não se censurar quando você estiver tendo ideias. Lembre-se de que o objetivo aqui é quantidade, não qualidade. A qualidade vem quando você observa as ideias, depois de já ter escrito várias, e as desenvolve e edita. Quem sabe você não termina o brainstorm com uma boa lista de pontos para a sua história, com ganchos, desafios e confrontos?

  1. Procurar por imagens

Há dias nos quais a inspiração bate à sua porta. Em outros, parece que ela está atrasada. E, nos dias mais complicados, ela cancela em cima da hora. Quem nunca teve um bloqueio criativo?

Quando preciso de inspiração e até mesmo escrever a primeira palavra de um brainstorm me parece assustador, apelo pro meu cantinho mágico de inspirações: o Pinterest. 

Será que faz sentido ficar vendo imagens à toa por horas a fio? Sim, faz sim. É uma forma de descanso para a parte do cérebro que está sempre pensando em como verbalizar suas ideias de uma maneira estruturada e uma ótima oportunidade para deixar que referências, temas e símbolos sejam plantados na mente sem ter que pensar muito. Ao procurar por algo no Pinterest, ou mesmo só ver o que é recomendado para ti, salvando as imagens que despertam o seu interesse em pastas específicas, você está falando para si “olha, isso é interessante”. O segredo para gostar de escrever é escrever sobre algo que te interessa. E, quando você gosta de escrever, o ato deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma diversão.

  1. Ler textos não convencionais como poemas e crônicas

Cansou de ler ficção? Ou acha que já viu um dragão ser derrotado de todas as maneiras possíveis? Ou que não existem goblins e kobolds engraçadinhos que vão te fazer adotá-los? Ou que nenhuma poção tem um efeito novo que te deixaria com o queixo no chão? Pode ser que esteja na hora de tirar um pouco a cabeça do mundo da ficção e descobrir um pouquinho outras coisas.

Vou dar um exemplo prático. Recentemente estava lendo o livro Sapiens, do Yuval Noah Harari. Este livro fala sobre a espécie humana e como ela evoluiu ao longo do tempo. Não terminei o livro ainda, mas já encontrei trechos que me fizeram pensar sobre como eles dariam ótimas narrativas. Tem um capítulo que fala sobre crianças, num passado distante, que foram enterradas com objetos valiosos, o que me deu uma ideia que pretendo usar em aventuras futuras. Mas me diga se isso não dá uma coçadinha no seu cérebro.

Outra alternativa, e uma que eu adoro, é ler poemas. Eles são uma fonte de inspiração imensa para mim, em especial quando se trata de criar personagens. Você vê o ser humano por outra perspectiva, fazendo com que as características da personalidade de alguém fiquem ainda mais destacadas. Sei que muita gente acha poesia uma arte chata e monótona, ou até mesmo cafona. Se esse é o seu caso, minha recomendação é ler poesia contemporânea. Uma das minhas autoras favoritas é a Bruna Beber, que escreve simultaneamente com sensibilidade e destreza. Minhas outras recomendações são a Ryane Leão, Ana Martins Marques e, a mais popular de todas, Rupi Kaur —  que inclusive tem um livro de exercícios de escrita criativa, chamado Curar Através das Palavras, que é muito emocional e delicado. Recomendo prosseguir cautelosamente com esses exercícios, eles são psicologicamente profundos e devo admitir que já chorei com alguns.

  1. Sair de casa

Essa é a dica mais desafiadora. Sair do conforto de casa para ir a um lugar público e escrever. Vencer a preguiça de sair de casa é a parte mais difícil pra mim. Contudo, estar num lugar diferente do meu quarto e ter comigo um caderno é tudo o que preciso para conseguir colocar algumas palavras para fora. Não sei se é o som da vida acontecendo ao redor, ou as luzes diferentes, ou o cafezinho que gosto de tomar.

Sei que não dá para fazer isso a todo tempo e que é difícil escolher um lugar bom. A minha sugestão de sempre são bibliotecas, mas estou ciente de que nem todo mundo mora perto suficiente de uma. Então, entra a minha segunda opção: o bar ou a lanchonete. Qualquer lugar com uma mesinha só sua, que você pode tirar o caderno da mochila, uma caneta, e passar alguns minutos com uma bebida do seu lado para ir tomando devagarinho. Não acho que fazer isso na hora do almoço seja uma boa, mas qualquer outro horário mais vazio é uma ótima opção.

Note que escrevi “caderno”, e não notebook. Acredito que escrever pequenas notas em um caderno é mais conveniente, em especial porque não se tem muito tempo em lugares públicos para escrever. Para mim, o caderno com alguns pontos importantes proporciona mais conteúdo em menos tempo de escrita.

  1. Assistir um filme que você nunca tenha visto antes

O tipo de atenção que prestamos num vídeo e na leitura de um texto são completamente diferentes. Na leitura do texto, nossa atenção tem que ser mais focada e usamos a imaginação para preencher os “vazios” que ele gera. Se eu escrever, por exemplo, “vaso de flores”, provavelmente o vaso que nós vamos imaginar será muito diferente. Ler é uma maneira de não apenas mergulhar numa ideia nova, mas também mergulhar em si. Por outro lado, quando se assiste a um filme, a atenção fica mais dispersa. Não temos que fazer tanto esforço quanto na leitura, dado que a informação já está lá. Isso não significa que assistir a um filme tem menos valor do que a leitura, mas, sim, apenas que os dois exigem tipos diferentes de concentração e geram estímulos diferentes.

A semelhança entre as dicas nº 4 e 6 reside no fator de “que você nunca tenha visto antes”. Assim como na dica “ler textos não-convencionais”, as informações novas geram pensamentos novos que trazem ideias diferentes.

Além disso, se for um filme de um gênero que você não costuma assistir, fica ainda mais interessante. Normalmente, filmes de gêneros diferentes têm eventos diferentes, podendo causar um senso de novidade para quem não está acostumado a assistir aquele gênero. Este senso de novidade pode ser o estímulo que você estava precisando para ter aquela ideia ou resolver certos problemas na sua escrita.

  1. Conversar com alguém que não sabe nada sobre a história 

Um olhar de fora te faz ver a história por outros olhos. Pra mim, a maior vantagem de contar uma ideia para alguém é que, se a pessoa se interessar, ela vai fazer perguntas. E, na maior parte das vezes, serão perguntas que a gente ainda não tem a resposta. Encontrar buracos é ótimo.

Muitas vezes, as melhores ideias são perguntas, e não respostas.

  1. Escrever fora de ordem

Sabe quando você tem um evento específico preso na cabeça, mas não sabe nem por onde começar ou terminar? Já tem o desafio, mas falta o gancho, ou já tem a resolução, mas falta o desafio. Pode ser que você sinta que a melhor coisa a se fazer é pensar nas partes faltantes e só começar a escrever depois que imaginar tudo. Proponho fazer algo diferente: escreva fora de ordem.

Escrever fora de ordem não apenas serve como uma maneira de não deixar as ideias se perderem, mas também muda a perspectiva da história. E, como vimos diversas vezes por aqui, a mudança de perspectiva é uma das chaves do processo criativo. 

O raciocínio não é necessariamente linear. Gosto de supor que o pensamento é como uma borboleta, que voa de flor em flor, mas nem sempre em linha reta. Pra mim, no mínimo, não parece que a borboleta calcula a distância mais curta entre uma flor e outra como se tivesse um Google Maps interno. Da mesma maneira, “voamos” entre as ideias, criando conexões novas a cada segundo. Por isso, a minha sugestão é: anote conforme as ideias surgirem sem tentar organizá-las num primeiro momento. Eventualmente, você terá a oportunidade de moldar as histórias, mas sua primeira missão é tê-las escritas da forma que for.

Como podemos observar nas dicas, o ponto mais importante desta publicação é: tente. Tentar é um ótimo primeiro passo — se não o único possível. E, a cada momento que você se dispõe a fazer algo em prol da sua criatividade, a sua criatividade também se dispõe a fazer algo por ti.


Agradecimento especial para o Professor André Salomão e para Lee, que me ajudaram imensamente na leitura crítica, edição e revisão do texto.

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