A luz da lâmpada do teto não incomoda tanto quando já se tem luz do dia. Sempre com a persiana aberta, é muito fácil acordar sem despertador com um sono tão leve, e muito difícil dormir quando se tem tanto medo do que pode encontrar. “Descanso” é uma palavra que não faz parte do meu vocabulário.

Desde que as visões começaram, dormir de forma profunda tem sido uma raridade. Hoje eu me levantei da cama com a nítida impressão de não ter dormido um minuto sequer. Talvez seja porque eu fiquei em um estado de semiconsciência a noite inteira, em uma vigília constante para não ser perturbada por outra visão de peixes humanoides me perseguindo. 

Eu não consigo lembrar o momento exato em que elas começaram. Eu achava que eram apenas pesadelos. Criaturas vindas do meu subconsciente, nada mais do que uma boa dose de terror e imaginação combinadas. Mas, depois que eu encontrei aquele livro, eu descobri que essas criaturas vão muito além da minha imaginação. Um livro carcomido, com páginas amareladas e com sua escrita desbotada. Parece que algum dia, ele foi um diário. Atualmente, é considerado um material de estudo por suas ilustrações vivas e curiosas. Quem me trouxe esse livro foi Carmen, a professora para quem eu trabalho como assistente. Ela disse que o encontrou durante a sua pesquisa sobre a arte de 1920, e que achou engraçado como as ilustrações do livro a lembraram do imagético da minha arte. Com o passar do tempo, eu descobri que lutar contra essas visões de nada adianta. Eu não passo de uma formiga no grande plano das coisas. Uma formiga que enxerga mais do que deveria, mas ainda assim uma formiga. Então, essa formiga se pôs a trabalhar com outras formigas. Mas ainda é cedo demais para isso.

Quarto, banheiro, cozinha. Essa é a rota normal pela casa que eu compartilho com 4 pessoas. No mínimo eu dei a sorte de conseguir pagar por um quarto só pra mim. Eu preparo o meu café moendo os grãos em um moinho portátil, e passo ele pelo filtro da minha V60 como se fosse o único momento de paz do meu dia. Porque é.

Glória entra na cozinha assim que eu dou meu primeiro gole. Ela começa a trabalhar cedo o suficiente para sair quase no mesmo horário que eu. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria vergonha de recolher o meu café e pão-na-chapa e ir pro quarto. Mas a Glória não é qualquer pessoa. Ela é engraçada e empática, ao mesmo tempo em que ela não é enxerida. Minhas amizades da época do colégio e da faculdade todas se desfizeram (eu não tenho energia para ficar entrando em contato com as pessoas, indo para bares e fingindo que tudo está bem), então meu relacionamento com a Glória é o mais próximo que eu tenho de uma amizade verdadeira. Se eu ou ela nos mudarmos desse apartamento, nenhuma das duas vai sequer tentar entrar em contato com a outra. Mesmo assim, é bom tê-la por perto.

—  E aí, como estamos hoje? Um dia daqueles ou um dia qualquer?

—  Os meus dias daqueles não passam de um dia qualquer.

— Ah, mas hoje é um dia especial. Lembra? Aniversário da Martha. Vamos cantar parabéns pra ela de noite, lá pelas 19 horas.

Martha é uma outra colega de apartamento. Eu nunca me conectei com ela. O fato de ser o aniversário dela não era motivo nenhum para que eu me sentisse animada.

—  Vai ter bolo de prestígio. Eu deixo um pedaço pra ti na geladeira.

Eu sorrio para Glória. Sorrio mais pela tentativa dela de me animar do que pelo bolo em si. Eu sequer gosto de bolo de prestígio.

Chego na faculdade mais cedo do que deveria, como sempre. É inevitável, eu não tenho o que ficar fazendo no meu quartinho. Claro, poderia ler alguma coisa na minha cama, mas a iluminação da biblioteca é melhor. Poderia ficar enrolando na cozinha, mas a cantina da faculdade tem um pé-direito mais alto e um espaço mais amplo. As pessoas por aí podem falar o que quiserem da FAAP. Que é faculdade de riquinho, que o vestibular é poder pagar a matrícula e que o ensino não chega aos pés das universidade públicas país afora. Bem, as pessoas não estão mentindo. Mas eu não consigo evitar a admiração que eu tenho pela arquitetura da faculdade. 

Conseguir ser assistente da Carmen foi uma das melhores coisas que poderiam ter acontecido. Melhores dentro do realístico, claro. Eu não espero que eu vá virar a próxima Frida Kahlo, em especial não com o teor das minhas pinturas.

Vou direto para o estúdio, e começo a preparar os materiais que serão usados nesta manhã. Meia hora depois de tudo estar pronto, alguns alunos vão chegando aos poucos na sala. Os mais dedicados costumam chegar mais cedo mesmo, e aproveitam para tirar dúvidas comigo ou pedir minha opinião sobre algum projeto. A Carmen é uma das últimas a chegar, mesmo sendo professora. Na verdade, acho que ela é uma das últimas a chegar justamente por ser a professora.

—  Vamos lá, está na hora de começar o nosso estudo de chiaroscuro, luz e sombra. 

As horas na faculdade passam rápido. É a melhor parte do dia. Ajudar os estudantes, aprender sempre algo novo, ser desafiada e desafiar. É o momento em que eu sou normal. Mas, tudo que é bom acaba rápido. Quando acaba o período diurno, chega minha hora de ir pra casa. Eu sempre enrolo. Não tem nada em casa pra mim. Eu gosto de passar nas livrarias que têm perto e fingir que eu vou comprar algo. Ou, ir tomar um café (mesmo que ruim) numa lanchonete qualquer. Eu já cogitei tomar menos café, talvez isso fosse melhorar a qualidade do meu sono. Tudo o que aconteceu foi que eu fiquei cansada e mal-humorada por dias. Desisti bem rápido da ideia.

Quando eu finalmente não posso adiar mais a minha partida, eu pego o ônibus de volta para o Bixiga e vou rascunhando qualquer coisa no caderno. Eu tento começar com a natureza morta. Flores, frutas, galhos secos, o que eu conseguir. Não demora muito até tentáculos e garras começarem a dominar as páginas. Não importa o que eu tente fazer, se eu deixo minha mente vagar, ela volta a isso.

Dentro do meu quartinho, eu trabalho por algumas horas em um freela de design qualquer. Não é algo que eu gosto de fazer, mas é algo que precisa ser feito. Depois disso, é hora de interações nas minhas redes sociais – gravar e editar reels, responder comentários, analisar os dados. Tudo isso porque não dá para ser artista hoje em dia e não ter nenhuma rede social, em especial quando você está tentando vender a sua arte de maneira independente. Quando isso acaba, eu posso finalmente desligar tudo o que tem ao meu redor e me focar em alguma pintura que ainda esteja incompleta. Decido que dessa vez vai ser a criatura meio mariposa meio polvo com tentáculos que parecem colunas vertebrais humanas. De vez em quando eu paro para ir na cozinha e comer algo, tomar um chá, olhar pela janela e respirar um pouco de ar sem cheiro de tinta. 

O momento em que eu finalmente consigo relaxar é quando recebo o chamado da Delta Green. Hoje não é diferente. Eu fico grata toda vez que recebo esse chamado. É nele que eu percebo que eu não enlouqueci, que todas as minhas visões fazem sentido e que eu posso usá-las para algo útil. Mais do que pronta, eu saio pela porta antes das minhas colegas chegarem em casa, determinada a enfrentar a realidade sobrenatural que se esconde do mundo, mas se revela para mim.


Notas

O propósito desse pequeno texto é desenvolver a Magnolia, uma personagem que eu fiz para jogar em uma one-shot usando o sistema Delta Green.

Através desse texto, consegui compreender um pouco mais sobre a Magnolia. A ideia que deu origem a ela é bem simples: uma pintora que tem visões sobre o sobrenatural. Tudo o que eu pensei sobre ela deriva, de uma forma ou de outra, desse conceito.

Compartilhei com vocês para mostrar um pouco mais do meu processo criativo. Esse exercício foi uma proposta do Vinícius Parisi.

A One- Shot estará disponível no podcast Papo Loki, do Jo Magalha. Ela conta com os jogadores André Grinberg, do Narradores Narrados, o próprio Jo, e eu; e como mestre o Vinicius Parisi . Foi uma ótima experiência participar dessa one-shot, e eu espero que vocês também se divirtam com ela, quando for lançada.

(Atenção no meu instagram e no tiktok, que eu vou promover por lá)

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